Setúbal, do «eu» ao «Nós»

Por Álvaro Cidrais, Fundador e CEO da A.Cidrais GPI

Setúbal (distrito) é um território de diversidades, com cerca de 900 mil habitantes, com 3 portos internacionais e uma rede de inovação e conhecimento relevante. Tem bairros pobres e zonas ricas, espaços rurais e urbanos, campo, praia e cidade, ambientes muito diversos. Está digitalizada e aberta ao mundo. Dentro de alguns anos, terá dois aeroportos nos seus limites norte. Está na Califórnia da Europa.

Vivemos um momento ímpar na história da humanidade.

Não se trata apenas de uma crise passageira ou de mais uma fase de transformação social. Estamos, de facto, a atravessar uma transição entre eras. É um ponto de viragem onde os velhos paradigmas já não respondem aos desafios do presente, e os novos ainda procuram formas de se afirmar.

O individualismo, a competição desenfreada e a lógica da posição deram sinais claros de esgotamento. A complexidade dos problemas que enfrentamos (como as alterações climáticas, as crises de saúde mental e relacional, as desigualdades económicas e de acesso à informação digital) exige uma mudança profunda de atitude e comportamentos.

Nunca estivemos tão ligados tecnologicamente e, ao mesmo tempo, tão sós, com muito mais poderes nas mãos de cada um. A IoT e a IA acentuam esta realidade.

Esta transição não é apenas desejável. É urgente. Precisamos de criar e praticar um novo paradigma de pensamento e de ação, assente na interdependência, na empatia e na corresponsabilidade. É preciso passar do “eu faço” ao “nós fazemos”.

O paradigma anterior, centrado no indivíduo e no crescimento a qualquer custo, fragmentou as comunidades, abriu as portas ao discurso vazio do ódio, degradou a paisagem política e deixou-nos exaustos, sobrecarregados por um excesso de obrigações, estímulos e informações.

Também já não basta competir e cooperar. É preciso aprender a colaborar.

A competição divide e deixa ressentimentos. A cooperação soma. A colaboração multiplica. É a melhor equação. Junta pessoas no processo de inovação (adaptação a este novo mundo), ou seja, na aprendizagem, experimentação, co-decisão, co-criação e avaliação do que vivemos. Cria poder integrado, sentido de propósito, significados partilhados e pertença. Passa-nos do «eu» ao «nós», com ganhos mútuos e múltiplos.

Novas abordagens e novos conceitos

Neste contexto, a liderança, tal como a conhecíamos, também tem de evoluir. Já não basta comandar, controlar ou inspirar a partir do topo. Surge a necessidade de uma nova abordagem: a eCoCuiDança. Este conceito propõe uma liderança que é, simultaneamente, ecológica e ecossistémica (atenta ao todo e às relações), cuidadosa (focada no bem-estar e na dignidade de cada um) e dançante (flexível, adaptativa, em sintonia com os ritmos e contextos).

Liderar, nesta perspetiva, é coreografar interações, cultivar confiança e promover a harmonia entre partes diversas, sem perder de vista a singularidade de cada elemento.

Se a liderança se transforma, também a colaboração ganha novos contornos. Já não basta o “ganha-ganha” tradicional, que tantas vezes se revela limitado ou superficial. O desafio é ambicionar mais: o 4Win. Esta proposta de colaboração integra quatro dimensões de ganho – para o indivíduo, para o grupo, para a organização e para o planeta.

É uma visão holística do sucesso, onde ninguém fica para trás e onde o bem comum é parte integrante do bem pessoal. Faz-se com ganhos múltiplos e mútuos. Incide sobre as pessoas, os processos, os resultados e os impactos.

A este propósito, o conceito de JOYning torna-se fundamental. Mais do que “joining” (unir-se por obrigação ou interesse), trata-se de unir-se com alegria, com propósito, com sentido de pertença genuíno. É a celebração da colaboração. Juntos somos mais criativos, adaptativos, fortes … e mais felizes.

Uma jornada, sobrecarregada, de desenvolvimento

Esta caminhada, «do eu ao nós», não pode ignorar o papel central que a tecnologia desempenha nas nossas vidas.

Vivemos imersos num oceano digital. A mediação digital das relações trouxe prejuízos e benefícios inegáveis – aproximou pessoas, democratizou o acesso à informação, permitiu novas formas de trabalho e de expressão, mas também introduziu tensões e desafios profundos. As relações mudaram. Tornaram-se, em muitos casos, mais superficiais, mais ansiosas, mais dependentes da validação externa.

A sobrecarga de informações e estímulos fragmenta a nossa atenção e dificulta a concentração no que realmente importa. A omnipresença do digital gera, paradoxalmente, uma sensação de vazio e de desconexão.

É aqui que a nova liderança e a colaboração se revelam cruciais. Precisamos de aprender a utilizar as ferramentas digitais sem sermos colonizados por elas. Precisamos de mediar digitalmente as nossas relações com consciência, estabelecendo limites, cultivando a presença real e protegendo o que é essencialmente humano: o olhar, o toque, a escuta profunda, a partilha silenciosa, os afetos.

Este novo modo de liderança, humanizadora e ecossistémica, a eCoCuiDança, aplica-se também ao universo digital. Exige que dancemos com a mudança, com a tecnologia, de forma cuidadosa, sem perder o equilíbrio nem a humanidade.

A transição do «eu ao nós» é um percurso exigente. Implica desaprender hábitos antigos, acolher a incerteza, experimentar novos modos de estar e de agir. Implica reconhecer que a minha liberdade acaba onde começa a tua dor, e que o meu bem-estar está ligado ao bem-estar do coletivo e do planeta. Implica, sobretudo, redescobrir a alegria de pertencer, de contribuir, de cuidar e de ser cuidado. Exige Co-Labor-Ação.

O futuro desejado não será construído por heróis solitários, mas por comunidades conscientes, por equipas colaborativas, por lideranças dançantes. O futuro será do «Nós», que revaloriza as ligações positivas dos vários «eu».

Sobre o Autor

Álvaro Cidrais é um observador atento da realidade, irrequieto e irreverente, é especialista em Liderança, Colaboração e Felicidade Organizacional. É líder de equipas há 40 anos, mentor, consultor, idealizador (e gestor) de projetos há mais de 30. Tem um perfil multifacetado de empreendedorismo, dinamização de projetos e inovação (empresarial e socioterritorial). Cocriou 9 organizações de inovação social e dinamiza redes e processos colaborativos. Cultiva Ambientes Positivos. Nascido em 1967, em Moçambique, é licenciado em Ensino da Geografia (1993), mestre em Geografia e Desenvolvimento Regional (1998) e pós-graduado em diferentes áreas da gestão. Considera que o Erro e os Conflitos são oportunidade de co-desenvolvimento, a Participação, a Avaliação e a Aprendizagem são ferramentas de evolução. Vive em Lisboa, trabalha, com gosto, em diversos projetos na «margem sul», desde 2014. É facilitador, formador e docente universitário, cofundador do projeto Amendoins com Casca e da cooperativa Lado BOM (envelhecimento positivo). Criou a as abordagens JOYning e 4Win e os termos de Melhorança e eCoCuiDança.

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