A música, a poesia e a memória de José Afonso regressam a Setúbal numa noite que promete ser tão emotiva quanto necessária. O espetáculo performativo “Zeca entre Coimbra e Setúbal” sobe ao palco da Sala José Afonso, na Casa da Cultura de Setúbal, hoje, sábado, 1 de novembro, às 21h30, e propõe uma viagem artística que cruza o passado e o presente, numa homenagem viva ao cantor e compositor que marcou gerações e inspirou a luta pela liberdade em Portugal.
O nome do espetáculo não foi escolhido ao acaso. “Zeca entre Coimbra e Setúbal” evoca duas cidades fundamentais na vida e no percurso do músico — Coimbra, onde nasceu o movimento estudantil e cultural que o formou, e Setúbal, onde viveu, compôs e se tornou símbolo de resistência e humanismo. O resultado é uma proposta que mistura música, declamação, registos históricos e arranjos contemporâneos, oferecendo um olhar renovado sobre o legado de Zeca.
A direção musical e composição estão a cargo de Wagner Merije, enquanto Fernando Franco dá voz à componente poética e narrativa. A fusão entre som, palavra e imagem constrói um espetáculo que vai além do tributo: é uma reinterpretação artística do espírito de José Afonso, construída a partir de gravações de época, novas leituras das suas canções e momentos de reflexão sobre o significado das suas palavras hoje.
Homenagem viva e atual
Mais do que um concerto, “Zeca entre Coimbra e Setúbal” é uma experiência performativa que desafia a nostalgia e procura manter vivo o pensamento crítico e o inconformismo do autor de “Grândola, Vila Morena”. Através de uma abordagem experimental e sensorial, o público é convidado a revisitar as raízes da música de intervenção portuguesa, mas também a questionar o presente.
A iniciativa integra o ciclo “Experimentáculo”, promovido pelo Município de Setúbal, que aposta em projetos híbridos, criativos e participativos, cruzando linguagens artísticas e desafiando fronteiras entre palco e público. O formato performativo permite redescobrir Zeca como uma figura em movimento — não apenas um símbolo histórico, mas uma inspiração contemporânea.
O legado de Zeca, entre gerações
Mais de meio século depois do 25 de Abril, José Afonso continua a ser um símbolo de liberdade, justiça social e consciência coletiva. Relembrar a sua obra é mais do que um gesto de saudade; é um exercício de cidadania. Em tempos de ruído e desinformação, as suas canções lembram-nos da importância da palavra cantada e do poder transformador da arte.
Setúbal, cidade com forte tradição cultural e operária, assume assim o papel de guardiã e reinventora desse património. Ao acolher este espetáculo, reforça o seu compromisso com uma cultura viva, crítica e inclusiva — aquela que não se limita a celebrar o passado, mas o transforma em matéria viva para o futuro.
Um convite à reflexão
Em palco, o público poderá esperar uma viagem emocional e intelectual, onde as melodias conhecidas de José Afonso se misturam com sons experimentais, vozes, memórias e registos sonoros. As pausas e silêncios são tão significativos quanto as notas, num espetáculo que procura ecoar o espírito de inquietação e esperança que Zeca sempre transmitiu.
Mais do que homenagear um nome, “Zeca entre Coimbra e Setúbal” quer reacender o diálogo entre gerações, entre quem viveu o tempo de censura e quem hoje enfrenta outros desafios de liberdade. É uma celebração, mas também um alerta — porque a arte de José Afonso nunca se quis confortável.
Com este espetáculo, Setúbal volta a afirmar-se como um dos grandes centros de criação cultural da Margem Sul — um território onde a memória serve de semente para a renovação. Entre Coimbra e Setúbal, entre passado e presente, a voz de José Afonso volta a soar — viva, humana e necessária.
