Entre Olhares 2025: Barreiro celebra o cinema, a memória e a resistência

Entre Olhares 2025: Barreiro celebra o cinema, a memória e a resistência

O Barreiro volta a afirmar-se como território de criação e reflexão com a nova edição do Festival Entre Olhares, que decorre de 1 a 9 de novembro, e que este ano ganha uma dimensão ainda mais ambiciosa. O evento, que se assume como um espaço de partilha e descoberta cinematográfica, aposta em temas como migração, identidade, memória e resistência, num diálogo entre o cinema, a música e a sociedade contemporânea.

Com sede na Margem Sul, o festival cresce e consolida-se com a introdução de uma competição oficial para longas e curtas-metragens, que será avaliada por um júri profissional e distinguida com a nova “Garça de Ouro”. Esta novidade marca um passo importante na afirmação do Entre Olhares como um evento de referência no panorama nacional, sem perder o espírito inclusivo e de proximidade que o caracteriza desde a sua criação.

Cinema que questiona e transforma

A programação deste ano é um convite à reflexão. A sessão de abertura apresenta “A Memória do Cheiro das Coisas”, de António Ferreira, um filme sensorial que explora como os sentidos guardam memórias e, com elas, histórias de resistência. Segue-se “Somos Dois Abismos”, de Kopal Joshy, que aborda a vivência de identidades em trânsito, e “Filhos do Meio – Hip Hop à Margem”, de Luís Almeida, um retrato da cultura hip hop enquanto espaço de voz e de afirmação das periferias.

Um dos momentos mais esperados será a exibição de “Explode São Paulo, Gil”, de Maria Clara Escobar. É um híbrido entre documentário e ficção que dá voz a Gildeane Leonina, uma mulher que sonhava ser cantora mas acabou como empregada doméstica na metrópole paulista. Entre memórias, música e silêncios, o filme revela a força e vulnerabilidade de quem busca existir numa cidade que promete o mundo e devolve invisibilidade. É também uma reflexão sobre poder, afeto e o próprio ato de filmar — quando a câmara deixa de observar e começa a partilhar vida.

As secções não competitivas — Olhar o Mundo, Territórios, Narrativas em Contraste e Caminhos Alternativos — mantêm-se como espaços de liberdade, diversidade e experimentação. Aqui, o público é convidado a descobrir narrativas que atravessam fronteiras e que desafiam convenções, celebrando o cinema como ferramenta de transformação social.

Curta-metragens e novos olhares

O Entre Olhares volta também a apostar em curtas-metragens como terreno fértil para a descoberta de novos talentos. Obras como “Pietra”, de Cynthia Levitan, “Pássaro Azul”, de Miguel Munhá, “Sabura”, de Falcão Nhaga, e “Foi com o Mar”, de Matilde César, demonstram a vitalidade e a diversidade da nova geração de cineastas portugueses.

A secção “Curtas à Primeira Vista” reforça essa aposta, apresentando estreias mundiais como “Pequeno País”, de Nicolau Botequilha, e “Turno da Noite”, de Pedro Cunha — provas de que o futuro do cinema português está em movimento e a nascer, também, na Margem Sul.

Um festival que se vive pela cidade

O festival espalha-se por três espaços emblemáticos do Barreiro: o Fórum Barreiro – Castello Lopes Cinemas, o Auditório Municipal Augusto Cabrita e o Cine Clube do Barreiro. A escolha não é casual — trata-se de um convite a viver a cidade como um grande palco de cultura, com diferentes ambientes e experiências.

Outra novidade digna de nota é que o bilhete do festival dá acesso gratuito a todas as carreiras dos Transportes Colectivos do Barreiro, promovendo a mobilidade sustentável e a inclusão — um gesto simbólico que reforça a ligação entre cultura, comunidade e território.

Música, periferia e resistência

O foco no hip hop e nas expressões culturais de resistência destaca o papel das periferias como espaço de criação e de voz. Através da música, da dança e da imagem, o festival oferece uma perspetiva renovada sobre o que significa ser “à margem” — não como afastamento, mas como potência criativa e identidade em movimento.

A presença simbólica de Gilberto Gil amplifica esta mensagem. O artista brasileiro, cuja vida e obra são pontes entre gerações e geografias, representa a ideia de que a arte é, acima de tudo, um território de liberdade.

Entre exibições, debates e encontros, o Entre Olhares 2025 convida o público a descobrir novas narrativas e a participar num diálogo que transcende a tela. O Barreiro transforma-se, durante nove dias, num ponto de encontro entre culturas, sons e histórias que desafiam o olhar e o pensamento.

Mais do que um festival de cinema, o Entre Olhares é um manifesto cultural que reafirma o poder da arte em tempos de mudança.

PARTILHE NAS REDES
Também poderá gostar de
Arteviva tem novo espetáculo de teatro
Cultura

ArteViva tem novo espetáculo de teatro no Barreiro

Entre 30 de janeiro e 28 de março, o Teatro Municipal do Barreiro leva à cena “O resto já devem conhecer do cinema”,...