O Barreiro volta a afirmar-se como território de criação e reflexão com a nova edição do Festival Entre Olhares, que decorre de 1 a 9 de novembro, e que este ano ganha uma dimensão ainda mais ambiciosa. O evento, que se assume como um espaço de partilha e descoberta cinematográfica, aposta em temas como migração, identidade, memória e resistência, num diálogo entre o cinema, a música e a sociedade contemporânea.
Com sede na Margem Sul, o festival cresce e consolida-se com a introdução de uma competição oficial para longas e curtas-metragens, que será avaliada por um júri profissional e distinguida com a nova “Garça de Ouro”. Esta novidade marca um passo importante na afirmação do Entre Olhares como um evento de referência no panorama nacional, sem perder o espírito inclusivo e de proximidade que o caracteriza desde a sua criação.
Cinema que questiona e transforma
A programação deste ano é um convite à reflexão. A sessão de abertura apresenta “A Memória do Cheiro das Coisas”, de António Ferreira, um filme sensorial que explora como os sentidos guardam memórias e, com elas, histórias de resistência. Segue-se “Somos Dois Abismos”, de Kopal Joshy, que aborda a vivência de identidades em trânsito, e “Filhos do Meio – Hip Hop à Margem”, de Luís Almeida, um retrato da cultura hip hop enquanto espaço de voz e de afirmação das periferias.
Um dos momentos mais esperados será a exibição de “Explode São Paulo, Gil”, de Maria Clara Escobar. É um híbrido entre documentário e ficção que dá voz a Gildeane Leonina, uma mulher que sonhava ser cantora mas acabou como empregada doméstica na metrópole paulista. Entre memórias, música e silêncios, o filme revela a força e vulnerabilidade de quem busca existir numa cidade que promete o mundo e devolve invisibilidade. É também uma reflexão sobre poder, afeto e o próprio ato de filmar — quando a câmara deixa de observar e começa a partilhar vida.
As secções não competitivas — Olhar o Mundo, Territórios, Narrativas em Contraste e Caminhos Alternativos — mantêm-se como espaços de liberdade, diversidade e experimentação. Aqui, o público é convidado a descobrir narrativas que atravessam fronteiras e que desafiam convenções, celebrando o cinema como ferramenta de transformação social.
Curta-metragens e novos olhares
O Entre Olhares volta também a apostar em curtas-metragens como terreno fértil para a descoberta de novos talentos. Obras como “Pietra”, de Cynthia Levitan, “Pássaro Azul”, de Miguel Munhá, “Sabura”, de Falcão Nhaga, e “Foi com o Mar”, de Matilde César, demonstram a vitalidade e a diversidade da nova geração de cineastas portugueses.
A secção “Curtas à Primeira Vista” reforça essa aposta, apresentando estreias mundiais como “Pequeno País”, de Nicolau Botequilha, e “Turno da Noite”, de Pedro Cunha — provas de que o futuro do cinema português está em movimento e a nascer, também, na Margem Sul.
Um festival que se vive pela cidade
O festival espalha-se por três espaços emblemáticos do Barreiro: o Fórum Barreiro – Castello Lopes Cinemas, o Auditório Municipal Augusto Cabrita e o Cine Clube do Barreiro. A escolha não é casual — trata-se de um convite a viver a cidade como um grande palco de cultura, com diferentes ambientes e experiências.
Outra novidade digna de nota é que o bilhete do festival dá acesso gratuito a todas as carreiras dos Transportes Colectivos do Barreiro, promovendo a mobilidade sustentável e a inclusão — um gesto simbólico que reforça a ligação entre cultura, comunidade e território.
Música, periferia e resistência
O foco no hip hop e nas expressões culturais de resistência destaca o papel das periferias como espaço de criação e de voz. Através da música, da dança e da imagem, o festival oferece uma perspetiva renovada sobre o que significa ser “à margem” — não como afastamento, mas como potência criativa e identidade em movimento.
A presença simbólica de Gilberto Gil amplifica esta mensagem. O artista brasileiro, cuja vida e obra são pontes entre gerações e geografias, representa a ideia de que a arte é, acima de tudo, um território de liberdade.
Entre exibições, debates e encontros, o Entre Olhares 2025 convida o público a descobrir novas narrativas e a participar num diálogo que transcende a tela. O Barreiro transforma-se, durante nove dias, num ponto de encontro entre culturas, sons e histórias que desafiam o olhar e o pensamento.
Mais do que um festival de cinema, o Entre Olhares é um manifesto cultural que reafirma o poder da arte em tempos de mudança.

