Por Álvaro Cidrais, Fundador e CEO da A.Cidrais GPI
Sabiam que a Península de Setúbal alberga uma das fábricas mais robotizadas do mundo? Que possui uma cena artística e criativa vibrante? Que a Baixa da Banheira é a capital do blues em Portugal? Que alguns dos melhores criadores do país vivem aqui? E que Tróia e a Comporta são hoje destinos globais das elites culturais e cinematográficas?
Sabiam também que este território é uma cidade polinucleada, com dois portos internacionais e, em breve, dois aeroportos, situada entre duas das maiores maternidades ecológicas do Oceano Atlântico – os estuários do Tejo e do Sado – e junto à mais antiga reserva ecológica mediterrânica do planeta, a Serra da Arrábida? Que Almada, Seixal, Barreiro, Moita, Palmela, Setúbal e Montijo têm uma história, património e identidade raríssimos?
No entanto, durante décadas, esta península foi vista de fora – e muitas vezes por dentro – como um território “menor”, a “Margem Sul”
Da margem esquecida ao território partido. Nos finais dos anos 70 e nos 80, Setúbal era sinónimo de decadência industrial, desemprego, pesca em declínio. Tróia definhava. O Barreiro era a cidade operária da CUF e da Quimigal, em crise. Almada vivia a lenta agonia da Lisnave. O Seixal fervia em conflitos laborais na Siderurgia Nacional. A Caparica era a praia barata, barracas e autocarros cheios. “A margem sul” era vista como o território dos pobres, dos operários e dos comunas.
Ao mesmo tempo, era um território culturalmente vivo, irreverente, com uma energia artística e social que Lisboa muitas vezes invejava. Era um dos maiores bastiões do PCP, o que lhe deu identidade, mas também o cristalizou politicamente.
Nos anos 80, surgem os primeiros sinais de transformação: o Instituto Politécnico de Setúbal, a Operação Integrada de Desenvolvimento, os fundos europeus e o PROTAML. Em 1991, a Autoeuropa. Depois, as novas fábricas da Mitrena. O território começa a mexer.
Mas a mudança foi profundamente desigual.
A inauguração da Ponte Vasco da Gama, em 1998, abriu oportunidades enormes a Montijo, Alcochete e Palmela. Em 1999, Setúbal até teve um plano estratégico de marketing territorial. Mas não o executou. A urbanização avançou, o imobiliário cresceu, alguns centros urbanos revitalizaram-se – mas os territórios rurais ficaram para trás.
Pegões, Canha, Poceirão, Marateca permaneceram agrícolas, pobres, invisíveis. Barreiro, Moita, Palmela e Montijo mantiveram a mesma cultura política. A estação ferroviária do Barreiro fechou. A península cresceu, mas partiu-se. De um lado, Azeitão, Almada, Setúbal urbano, zonas com classes médias, turismo, novos residentes. Do outro, uma cintura rural e semi-rural esquecida, envelhecida, mal qualificada, sem voz.
Da desilusão à revolta política. Quando regressei ao Barreiro, em 2014, cerca de vinte anos depois, percebi que algo tinha mudado, mas não tudo. As desigualdades eram agora mais visíveis. A diferença entre quem tinha capital económico e cultural e quem não tinha tornara-se evidente.
Depois veio o Covid-19. E ele fez algo decisivo: destruiu laços comunitários, acelerou a pressão imobiliária e empurrou para a Margem Sul milhares de lisboetas empobrecidos e imigrantes recém-chegados. O território transformou-se socialmente em poucos anos.
Ao mesmo tempo, as freguesias rurais tornaram-se mais produtivas com mão-de-obra asiática, mas não mais integradas. Cresceram sem inclusão, sem serviços, sem reconhecimento.
E então, em 2022, aconteceu o que parecia impossível: em muitos destes lugares, o Chega ultrapassou a CDU. Em 2024, 2025 e 2026, esse movimento consolidou-se. Em Pegões e no Poceirão-Marateca, tornou-se a primeira força política, com resultados próximos ou superiores a 40%.
Não foi um acidente. Foi uma consequência.
Estas populações sentem-se esquecidas, desvalorizadas, enganadas. Viram promessas de desenvolvimento nunca cumpridas. Assistiram à valorização dos centros urbanos enquanto os seus territórios estagnavam. Sentem que não contam para ninguém.
E há quem saiba transformar essa sensação de abandono em capital político.
O paradoxo é cruel: Portugal e a Península de Setúbal melhoraram muito nos últimos 30 anos. Mas melhoraram sobretudo para alguns. Para outros, a vida tornou-se mais cara, mais insegura, mais incerta.
Que futuro é possível?
A grande questão agora não é quem ganhou as eleições. É o que acontece a seguir. Destruir um sistema envelhecido foi fácil. Construir um novo é infinitamente mais difícil.
Estamos a entrar numa sociedade muito mais global, digital, instável e exigente. Os modos de trabalho, as competências exigidas mudam, tal como as formas de viver em comunidade. Nenhum território sobrevive hoje sem qualificação, inovação, colaboração e inteligência colaborativa.
A Península de Setúbal tem tudo: localização, portos, estuários, natureza, universidades, indústria avançada, cultura, talento criativo.
O que lhe faltou foi uma visão integrada e inclusiva.
Uma pergunta decisiva pode ser: serão estas comunidades diversas capazes de se unir para construir um novo modelo de desenvolvimento – ou vão apenas trocar umas ilusões por outras?
A revolta pode abrir portas. Mas só a colaboração, o conhecimento e a co-criação constroem futuros. Setúbal não precisa de salvadores. Precisa de inteligência colaborativa. As pessoas e as suas relações … transformam os territórios.



